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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Bem alto


"Além do mais, não tenho paciência com gente que não consegue desprender-se das coisas, que continua indo atrás delas e se lamenta. Quando algo acabou, então acabou. Chegou ao fim e pronto. Deixe ir! Ignore e console-se, caso queira consolar-se, com o pensamento de que jamais se recupera a mesma coisa que se perdeu. Sempre será uma coisa nova. No momento em que nos deixa, ela se modifica. Isso é verdade até mesmo em relação a um chapéu de que se corre atrás; e eu não me refiro a um plano superficial, mas a um plano profundo... Jamais lamentar, jamais olhar para trás: fiz disso uma regra de vida. Lamentar-se é um estarrecedor desperdício de energia, e ninguém que pretenda ser escritor pode se permitir tamanha indulgência. Não se pode dar forma a isto; a partir disso nada se pode construir; serve apenas para a gente chafurdar. Claro que olhar para trás é igualmente fatal para a Arte. É manter-se pobre. A Arte não pode e não suportará a pobreza."

Katherine Mansfield, 1920

E ainda estou de pé.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Colheita


E nem olhava para a cara de quem a segurava. Dormia num quarto separado, quando na verdade eram eles eram mais que um;

Escondida na concha vazia, já ouvia aquelas palavras agora pronunciadas sem uma cor que as definisse, frases que juntassem os sentidos em lapsos de segundos trancados em seis lugares invisíveis;

O pescoço quente e frio, o chocolate engolido à força em colheres presentes a cada cinco minutos, o corpo inerte em peso morto de aurora;

e eu tateava o teto, soltava as mãos, ouvia o silêncio preenchido com palavras absurdas deitadas em cansaço e decepção. Quem ali conhecia a verdade? Quem ali sabia o que estava fingindo?

Peça para eles pularem mais alto, viverem mais décadas, pararem de se importar.

Beijei a cova com a cabeça dentro d'água. E tudo ainda continua a esquentar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

No Rain


Ruth uma vez me disse isto enquanto desenhávamos em janelas de vidro com as pontas dos dedos:

"Quando me vem à cabeça aquela ideia de que o inverno vai acabar, que não vou poder olhar para meus pés molhados e achá-los divinos ou mesmo sentir uma gota vagabunda cair em meus cílios presos em rímel, sinto uma vontade imensa de desaparecer na bruma, de não ter um rosto, de subir no lugar mais alto que conheço e devorar tudo que vejo com meus olhos. É como se toda a minha devoção - não sei bem a quê - se misturasse aos anos, a todos os anos que vivi, a todos os anos. Eu posso seguir fingindo que a noite não existe, cantar uma só palavra, chorar para que minhas lágrimas amargas se misturem à água doce. Eu me escondo sob uma mesa de madeira, puxo minhas cobertas até o queixo, ouço a chuva, junto as mãos e provo o que cai com a satisfação de quem vê o mundo pela primeira vez. Procuro não fingir e não me sentir fraca. É no Paraíso que os sonhos são feitos de pingentes de gelo, é lá que só encontro marcas de um passado não muito distante.

Mas eu ainda tenho muitos anos. Tenho o frio na espinha, os casacos de lã marrom, meu coração preso em câmaras e a minha velha serenidade."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Capítulo IV


Envolvida em máscaras de papel vermelho e pulseiras feitas de contas de terços partidos, olhei para meus calcanhares em carne viva, e senti que podia me despir de qualquer sensação vinda de meus olhos cansados e simplesmente sorrir.

Eu não precisava que ninguém chegasse perto de mim, soprasse em meu rosto para que, enfim , eu visse o que estivesse à minha frente sem as dores de minha miopia triste;

Lambi a palma de minha mão esquerda e senti o gosto amargo do tempo passado entre dias e noites envolvidos nos véus de minha imaginação sem asas;

Repeti minha palavra favorita cem vezes seguidas até seu significado se perder em minha língua e eu cair tonta com suas sílabas em minha cabeça;

No final, ouvi A Case Of You na vitrola velha escondida na cortina branca de minha casa vazia. Só eu e aquela capa azul.

domingo, 3 de outubro de 2010

1961


Foi exatamente esta conversa que ouvi enquanto esperava ser chamada no consultório médico :

"No momento que eu senti que tudo aparecia em frente aos meus olhos poderia se tornar pó entre as lembraças tardias, eu me prendi ao que nós chamamos de sensações da alma. Percebi que viver de momentos breves pode também fazer de mim uma pessoa breve, mas ao mesmo tempo infinita, daquelas que não conseguem a disciplina necessária para se tornar sãs. Peguei uma tesoura que estava dentro da gaveta e, naquele exato momento, cortei as alças de meu vestido azul só para sentir o frio de minha tristeza sobre minha pele. Passei batom vermelho, rasguei fotos antigas e me prendi no desespero de uma Monica Vitti. Todo o perigo que me cerca é resultado de minha negligência cega, insípida e cortante e tudo que acontece e me atinge, de uma forma ou de outra, é causado pela minha estranha "felicidade", que insisto em chamar de mórbida. "

E aquela sinceridade pulsava em mim como uma série de instantâneos tirados ao meio-dia...

sábado, 5 de junho de 2010

Daqui a cinquenta anos


Danny uma vez me disse:

"Quando mal se espera, todos nós percebemos que quase tudo que passa pelas nossas mãos é efêmero. Tem certos momentos - aqueles em que não sentimos o perfume do orvalho da manhã fria ou acordamos tristes porque choveu no dia anterior - em que o melhor a fazer é aproximar-se de um rio e procurar onde pôr nossa alma. Porque com um rio a gente pode ensinar os pés a voarem, os pensamentos a escorrerem pela superfície e o nosso corpo a sentir o que existe nas entrelinhas.
Podemos conhecer a palavra que define nossa existência, ouvir o som que bate frio na nossa pele ou até mesmo sabermos a cor da nossa felicidade daqui a cinquenta anos para, enfim, nos darmos conta de uma coisa e voltarmos exatamente ao começo: juntamos as mãos para segurar o que possa escapar por entre elas.
Porque a gente pode vencer o tempo. Mesmo que ele seja passageiro".

Descobri que ele estava correto.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

"Tlinta e Tlês"



Era tarde quente de domingo e mamãe e papai descansavam no sofá depois do almoço. Eu observava o tempo passar através da janela empoeirada da sala, sentada no banquinho de madeira feito pelo tio Petrônio. A campainha toca e eis que entram tia Mercedes e a prima Sandrinha. Engraçada, a prima Sandrinha. Ela tinha a minha idade e falava de um jeito estranho, trocando as letras. Fazia tudo o que a gente pedia.
Foi aí que tive uma ideia.
Quando a vi sentar-se na cadeira de vime para assistir ao filme do Jerry Lewis (O Professor Aloprado até hoje não me sai da cabeça), discretamente cheguei por trás e arrastei-a pela sala, com cadeira e tudo. Eu gritava: "Trinta e três! Carrinho de sorvete trinta e três!". A prima Sandrinha, assustada, só sabia falar: "Tlinta e tlês! Carrinho de picolé tlinta e tlês!" E eu continuava, já tonta por causa da correria: "Grita, prima Sandrinha! Trinta e três! Trinta e três!" Só se ouvia "Tlinta e tlês! Tlinta e tlês! Carrinho de picolé".

Nunca vou me esquecer de nossos rostos avermelhados e de minha saia rodando pelos corredores. O gato da vovó acordou assustado.

Mamãe me pôs de castigo. E a prima Sandrinha ganhou um sorvete para se acalmar. Não, foi um picolé.