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domingo, 22 de maio de 2011

Jardim do bem, jardim do mal


Dá para sentir o cheiro doce que passa entre os galhos secos?

ou a luz fria de um sábado de manhã?

Nós sempre teremos Paris

segunda-feira, 16 de maio de 2011

azul triste, doce fogo


Deitar sobre um lençol de grama molhada às quatro da manhã não me fez querer falar com o que eu não conhecia até aquele momento. Todo o dinheiro, as sombras e a água que caía da fonte de leões pretos só me atingiam na hora que eu me esquecia do que estava bem ao meu lado. Não precisei concentrar meus desejos num campo de conversas esquecidas ou ouvir os aplausos que se misturavam aos vestidinhos falsos que corriam sobre as pedras sujas de hipocrisia.

Não me lembro de nada, meu cabelo se enroscava à insanidade que me saía através dos poros que transpiravam a vontade dos refugiados nas estradas.

Levantei-me com minha blusa suja de terra fria. O desenho da BB cheirando a perfume, a última garrafa quebrada por acidente e o dia começando às nove.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

sem mais


Sabe qual a nova mania?

Prender os cabelos bem alto, só para não vê-los cair nos ombros durante todo o dia.

Tudo isso para sentir a consciência arranhar o pescoço com o vento frio e não reconhecer o que nos toca de forma inesperada

terça-feira, 3 de maio de 2011

Exílio


Você está irradiando glória sobre mim

Glória

E eu olho para baixo achando que ela vem do chão

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Especulações

Quando eu tinha cinco anos, acontecia de chover no final de semana que eu passava com minha avó. Naquela época, eu não sabia o que era um trovão e, toda vez que eu ouvia um, imaginava uma grande geladeira amarela derrubada por um gigante de blusa azul no céu frio. Quando eu perguntava à minha avó o que era aquele barulho tão forte, ela só ria e depois concordava com minha suposição a respeito do gigante e da geladeira.

Ninguém me avisou que o céu podia cair sobre nossas cabeças. Acho que foi por causa disso que minha avó não me disse nada a respeito dos trovões, talvez ela já soubesse que a gente não podia ter medo do inevitável ou do que se esconde por trás de nossa felicidade ferida. Descobrir o que eu já devia saber não me deixou atrás dos outros, só aumentou minha vontade de olhar para dentro.

Mas se dentro a gente não tem nada!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Nada


Parece que tudo correu tão bem hoje. Choveu demais, sujei os pés na lama, não pensei no futuro. Tirei o peso das costas, vi as ruínas na água suja das calçadas, assisti a partes de O Poderoso Chefão Parte II e cheguei atrasada na aula da tarde porque só sairia de casa quando o Robert De Niro aparecesse - o que levou mais de quarenta minutos.

Passei o dia de cabelo preso num coque alto, as bochechas cheias de blush cor-de-rosa. Comi quatro barrinhas de chocolate no trabalho, cheguei mais cedo só para conversar sobre o Frank Sinatra e o Martin Scorsese com um amigo enquanto comia Fandangos de queijo. Tirei uma foto com orelhas de coelho branco desejando comer o quinto chocolate do dia.

Antes de tudo isso, acordei às cinco da manhã pensando no William Faulkner e em qual música eu iria ouvir naquela hora. Quando voltei para casa, dormi achando que só assim a chuva não pararia até que eu conseguisse levantar novamente. Antes de sair para a aula, comi pizza de canela com banana frita como almoço morrendo de inveja da Diane Keaton por ela ter tido um filho com o Al Pacino e eu não - o que o ciúme não faz, né?

Adorei usar meu guarda-chuva amarelo durante todo o dia, minha blusa branca favorita cheirando a alvejante fresco às duas da tarde. Saindo da aula, pensei no quanto eu mereceria uma viagem para a Europa só para tentar ver o Louvre inteiro em seis horas - e, claro, correr pelos corredores de mãos dadas com dois estranhos.

O que desejo agora é ouvir o Neil Young cantar country rock. Era só disso que eu precisava quando acordei essa manhã!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cinco minutos


Joguei os sonhos feitos debaixo da mangueira numa lata de lixo, prendi o vapor dos momentos passados a ferro e perfume frio de lavanda sem cor num pote de vidro com pimenta verde;

Ceguei os olhos do meu cavalo branco com a lâmina escondida sob os cobertores, uma ânsia desenfreada de prender os segundos entre as mãos, é tão fácil fazer os outros desaparecerem!

Ninguém tem pressa de viver. Ninguém tem pressa de ver o que ultrapassa o limite do que não se pode ter.

terça-feira, 22 de março de 2011

Depois da corrida do ouro

que eu não durma a noite inteira
que escreva com meus dedos em carne viva
que eu retire a inspiração das pontas dos cabelos
que eu só veja o que me atinge por baixo da superfície simulada do contentamento
que eu especule
minta
inveje as armas dos dissimulados
mate o tempo com as duas mãos
rejeite o sentimento, a existência imutável, a ânsia cega

que eu retire a angústia e o odor dos sonhos ultrapassados

No fim, eu percebo

que é só açúcar. Uma cor invisível pra me fazer feliz.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um cobertor e um copo d'água

"In the winter, we shall travel in a little pink railway carriage
With blue cushions.
We shall be comfortable. A nest of mad kisses lies in wait
In each soft corner.

You will close your eyes, so as not to see, through the glass,
The evening shadows pulling faces.
Those snarling monsters, a population
Of black devils and black wolves.

Then you’ll feel your cheek scratched…
A little kiss, like a crazy spider,
Will run round your neck…

And you’ll say to me : “Find it !” bending your head
And we’ll take a long time to find that creature
Which travels a lot..."

Arthur Rimbaud, A Dream For Winter

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

D.A.R.L.I.N.G


Com a cara de quem acabou de ver tudo passar na superfície da pálpebra esquerda, uma borboleta úmida sobre os papeis velhos, uma caneta preta que estourou no lençol branco, os lábios pretos e amargos em danças sagradas.

Ouvir Beach House mostra a vida já construída em imagens tremidas de câmera Super 8, os rostos embaçados em quatro minutos, os pensamentos envolvidos em fumaça de tabaco, vestidinhos de flores amarelas, ideias já feitas, ver as nuvens pela primeira vez e prová-las com a ponta da língua.

In that harbor of a room

you'll find your anchor soon
in the parting of our ways
may it never happen

anyway


Q.U.E.R.I.D.A, que isso nunca aconteça, ouça o som de pianinhos tristes, sopre pedacinhos de papeis coloridos na cara do perigo, pois ninguém sabe quando os estranhos retornam. Dias difíceis não acontecem somente em manhãs frias de domingo.

Admire cinco quadros tristes e mande meus cumprimentos para Broad Street.

sábado, 29 de janeiro de 2011

No Rain


Ruth uma vez me disse isto enquanto desenhávamos em janelas de vidro com as pontas dos dedos:

"Quando me vem à cabeça aquela ideia de que o inverno vai acabar, que não vou poder olhar para meus pés molhados e achá-los divinos ou mesmo sentir uma gota vagabunda cair em meus cílios presos em rímel, sinto uma vontade imensa de desaparecer na bruma, de não ter um rosto, de subir no lugar mais alto que conheço e devorar tudo que vejo com meus olhos. É como se toda a minha devoção - não sei bem a quê - se misturasse aos anos, a todos os anos que vivi, a todos os anos. Eu posso seguir fingindo que a noite não existe, cantar uma só palavra, chorar para que minhas lágrimas amargas se misturem à água doce. Eu me escondo sob uma mesa de madeira, puxo minhas cobertas até o queixo, ouço a chuva, junto as mãos e provo o que cai com a satisfação de quem vê o mundo pela primeira vez. Procuro não fingir e não me sentir fraca. É no Paraíso que os sonhos são feitos de pingentes de gelo, é lá que só encontro marcas de um passado não muito distante.

Mas eu ainda tenho muitos anos. Tenho o frio na espinha, os casacos de lã marrom, meu coração preso em câmaras e a minha velha serenidade."

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Doigts


Frio entre os pés, gosto de bebida amarga, de bala de menta fresca;

Cheiro de mar furioso, de gota de chuva sobre as lentes, de perigo envolvido em expectativas, frias expectativas;

Dor nos espaços que estavam ali, sono, vontade de explodir o céu só para não ter que olhar para cima;

Eu me vesti para o sucesso, mas o sucesso nunca veio. De repente, era só eu quem ria das piadas, quem esperava em um lugar que eu imaginava ser o começo, mas que na verdade era o fim;

Mãos duras, olhos que não tinham cor, uma alma que não se movia;

Eu me juntei numa ação incontrolável, vivi meus melhores momentos de forma aleatória, acho que isso era o melhor que eu sabia fazer;

E os dedos imóveis sobre uma superfície invisível, uma blusa cor-de-rosa, total indiferença nos movimentos já programados;

E as piadas eram tão ruins. Tão ruins.

Vou manejar o fogo com varetas e trancar o inverno vagabundo num pote de vidro;

Vou embrulhar lembranças que não passam de diamantes e ferrugem em papel firme e jogá-las no limite entre a mentira e a verdade;

E eu tinha pressa enorme de ir embora.

(1971)