Mostrando postagens com marcador sepia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sepia. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de abril de 2011

Lots of laughs


Chega aquele momento ridículo em que você acredita que já é tarde demais para fazer as decisões corretas. O que fica mais claro - e machuca e queima - é que a porcaria da sua alma não consegue mover-se sozinha como antigamente, que você já não consegue andar com suas próprias e raras experiências vividas bem próximas à ilusão que é doce para você, mas inteiramente amarga para os outros.

"Prenda-me no cais morto ou deixe-me navegar sozinho, por favor" é o que todo mundo diz para si mesmo quando a visão está adormecida na sua consciência empoeirada, uma sensação presa ao corpo que só reage ao som de risadas falsas e belas mentiras.

Escondi meus sapatos debaixo da cama e o batom vermelho dentro da bolsa. É difícil fazer milagres, muita gente desiste antes que eles aconteçam. Talvez já seja algo, não?

sábado, 26 de março de 2011

Fim de tarde


Encontrei uma borboleta no meu quarto enquanto dormia sozinha numa tarde triste de quinta-feira. Andei até a cozinha e encontrei outra lá no alto, perto da janela do banheiro e num lugar da casa que até então nem tive o trabalho de olhar. Peguei uma delas entre os dedos, as asas tão frágeis que, por instantes, pensei que fossem se dissolver em minhas mãos. Coloquei-a na porta do meu armário, na ponta do meu travesseiro, nas páginas dos meus livros favoritos. Três dias depois, descobri que ela continuava na minha prateleira, mas quando a segurei, o pó escuro da morte inevitável sujou minhas unhas.

Ela ainda está lá. Aquela mancha preta formando um olho na asa esquerda me observando como um jogo de regras falsas, uma disputa para saber quem consegue disfarçar o olhar frio que insiste em aparecer nos dias quentes. Pelo menos, eu sou a melhor fingidora.

terça-feira, 22 de março de 2011

Depois da corrida do ouro

que eu não durma a noite inteira
que escreva com meus dedos em carne viva
que eu retire a inspiração das pontas dos cabelos
que eu só veja o que me atinge por baixo da superfície simulada do contentamento
que eu especule
minta
inveje as armas dos dissimulados
mate o tempo com as duas mãos
rejeite o sentimento, a existência imutável, a ânsia cega

que eu retire a angústia e o odor dos sonhos ultrapassados

No fim, eu percebo

que é só açúcar. Uma cor invisível pra me fazer feliz.

sexta-feira, 11 de março de 2011

broken scene


Cheiro de chuva velha nas madrugadas dos lábios entre os dentes, desenhos animados manchados de amarelo e laranja, uma sala sem relógio e com os olhos ardentes pintados de vermelho no escuro.

Pessoas nos seus terninhos engomados e comendo suas pérolas no almoço, cabelinhos alisados e cheirando a perfume comprado na esquina, aquele sonho falso de que o universo foi feito para aqueles que sofrem, todo mundo viaja de primeira classe, por favor, circulem a minha alma!

Jogaram fora aquelas notas bobas escritas com canetas cor-de-rosa em papeizinhos de caderno velho enterrado na última gaveta do armário, eu chutei um castelo de areia na cara e na boca do Inferno, meu nome nem vai estar no jornal ou uma tela gigante de fundo enferrujado.

A arrogância saindo de poros quentes de soberba feia, olhos de lua cheia que chegam a ser tristes de tão ridículos, o mapa da minha trajetória de mentira desenhado atrás do caminho dos outros, vamos encarar as circunstâncias.

Olhos e pele e ossos e cílios e lábios presos numa jaula fria solta no meio da estrada, uma prisioneira solta debaixo de lentes grossas de hipocrisia fingida em noites de quarta-feira. Era o meu ego desenhado na poeira amarela na janela do meu quarto sem cor.

E aquela tontura delirante que vem o aroma doce do sucesso imaginado? Sucesso que dura oito minutos, quatro dias, dois meses, a embriaguez que fica longe, a ilusão que fica perto, a regra do jogo que fica por trás do leque de quem finge viver, the last of true believers.

Eu matei um cordeiro e tomei seu sangue só para pra provar que a cor do meu não era igual à dele. Usei o cobertor velho para molhar na chuva verde, preta, azul, lilás, de cor nenhuma. Quem sabe quando amanhecer eu acho o meu blues no telhado?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Over & Over

Vontade de fechar o mundo entre as mãos e apertá-las até que toda a humanidade saia entre meus dedos;
Vontade de não sentir nada e estar perto para não ver;
Vontade de não ser;

Vontade de estar longe;

Vontade de não estar lá
Vontade não saber por quê

Vontade de provar o tempo, deitar, parar, parar, voltar

De novo e de novo

domingo, 3 de outubro de 2010

1961


Foi exatamente esta conversa que ouvi enquanto esperava ser chamada no consultório médico :

"No momento que eu senti que tudo aparecia em frente aos meus olhos poderia se tornar pó entre as lembraças tardias, eu me prendi ao que nós chamamos de sensações da alma. Percebi que viver de momentos breves pode também fazer de mim uma pessoa breve, mas ao mesmo tempo infinita, daquelas que não conseguem a disciplina necessária para se tornar sãs. Peguei uma tesoura que estava dentro da gaveta e, naquele exato momento, cortei as alças de meu vestido azul só para sentir o frio de minha tristeza sobre minha pele. Passei batom vermelho, rasguei fotos antigas e me prendi no desespero de uma Monica Vitti. Todo o perigo que me cerca é resultado de minha negligência cega, insípida e cortante e tudo que acontece e me atinge, de uma forma ou de outra, é causado pela minha estranha "felicidade", que insisto em chamar de mórbida. "

E aquela sinceridade pulsava em mim como uma série de instantâneos tirados ao meio-dia...